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eu me despiria, mesmo em uma terra feita de roupas, só para que pudesse me sentir inteiro

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eu me despiria, mesmo em uma terra feita de roupas, só para que pudesse me sentir inteiro

em que saio à procura

eduardo furbino
Jan 15
4
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eu me despiria, mesmo em uma terra feita de roupas, só para que pudesse me sentir inteiro

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os fragmentos de hoje são sobre buscas. assim, bem simples.

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dois textos, escritos mais ou menos na mesma época, no final do ano passado, recorrem à mesma imagem de um labirinto. relendo, lembro o quanto me sentia perdido naquelas últimas semanas e como encontrei algo quando abandonei a procura.

bom domingo!


i.

só quando chegasse ao centro, pensei, me reconheceria num labirinto. assim seria (quase foi), mas um labirinto é, essencialmente, a construção da busca — e eu não buscava por nada. estar sozinho, mas não à espera. descobri que surgem daí as maiores formas de amor.

ii.

bermudas, 12 de novembro de 1962

querida cássia,

aqui todos andam desesperadoramente vestidos. não há, em nenhuma praia, sob nenhuma ótica, quem não traje sobre o corpo o que esta terra traja como nome. me pergunto se nossos nomes ditam o que seremos. queria, cássia, que me tivessem chamado tomé — e que tudo o que sinto eu pudesse tocar com os dedos para ver se é real. eu me despiria, mesmo em uma terra feita de roupas, só para que pudesse me sentir inteiro.

iii.

quando não há escapatória
o labirinto parece uma cerca feita de doces
como se chamava em joão e maria?
um intrincado bolo formigueiro
formiga e gente são no fim a mesma coisa
o pé se arrasta pela terra o centro
do labirinto imóvel e todos semoventes
estranha é a hora da chegada
estranho é ter tempo a perder

iv.

a ideia de ser amado e compreendido me assustava mais que a perspectiva de nunca conhecer o sentimento verdadeiro. pensava: haveria de resistir em mim, mesmo que na forma de uma partícula irrisória, algo de insólito, de inescrutável, capaz de me manter o objeto de desejo do querer alheio e (talvez mais que isso) do meu próprio interesse. pensar o amor dessa forma me trouxe muita dor, mas, certa vez, vi um casulo feio cair do mais alto galho de uma árvore e o bicho-objeto dentro dele sobreviver para completar a metamorfose. a resiliência de algo frágil foi para mim um tipo de cura e me convenci que enquanto existirmos há futuro — e que o horizonte que carrega em si a ideia da manhã também guarda em suas linhas um segredo inescapável, uma força movedora de vida. enquanto estiver aqui, pode ser que o amor me seja o desencanto do mistério, mas sei que o ato de ser desencantado tem como consequência o enfeitiçamento da realidade, para onde escoa tudo o que é oculto, poderoso e intimamente nosso. amar e abrir-se ao amor, me dei conta, é matar múltiplos futuros na esperança de que um passado único possa nascer. nessa dança entre início e fim, somos o coveiro e a pá e a lápide e o corpo e a terra. e somos, igualmente, casulos em metamorfose; o além da barreira; a continuidade do mistério como uma verdade e a redescoberta da verdade enquanto incômodo que nos move.


uma música

meu grande amigo last.fm me diz que a música mais escutada da semana foi Fogueira Doce, do Mateus Aleluia. essa é uma que descobri em 2018 e nunca me deixou.

não planejei o tema da newsletter de hoje com antecedência, nem fui influenciado pela música, mas acho interessante como esse trecho dela se conecta com o que eu disse aqui:

Quando eu vim pra esse mundo
Eu mostrei minha cara
Sem marcar bobeira
Cantei o meu canto
E fiquei por cá
Coisa castiça
Coisa tão bonita
Coisa tão faceira
Cantei o meu canto
E vi Luanda

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